sábado, 22 de março de 2014

Passinho

Que coisa intimidadora é a entrada em um hospital, mesmo quando é para visitar um bebê recém chegado, a atitude muda, os gestos diminuem junto com o tom de voz, as fisionomias estão carregadas de uma seriedade e um receio que transparecem até nos melhores atores, é natural, a atmosfera é pesada, ainda que a crença e o desejo de que a esperança se concretize viva em nós, sempre, porque se isso não acontecesse, que dificuldade levantar da cama todos os dias. Entre as mudanças, a que me chamou atenção foi o andar, ele não se move com passos, e sim, com passinhos, este é o verdadeiro passinho, o decidido, altaneiro, fica por conta de quem lá trabalha, quem está só de visita, com acomodações ou sem, anda miudinho, pequenininho, como se não pertencesse àquele quadrado. A ilustração desta situação, vi 3ªfeira passada, a primeira de 30 incursões que meu tio gatinho vai ter de cumprir ao hospital, chegamos conversando amenidades, depois nem isso, o que nos salvou de um silêncio arrasador enquanto esperávamos foi o interesse providencial pelo celular e pela senha do wi-fi, ninguém queria nada, não estávamos procurando nem o sentido da vida, nem a dieta ideal, nem o itinerário de um ônibus, estávamos cada um, meu tio, minha mãe e eu, tentando pensar em qualquer outra coisa que não fosse a primeira sessão de radioterapia, não sabíamos como seria, que efeitos provocaria, foi quase como uma forma de oração, a real, tenho certeza que todos já tinham colocado em ação. Quando acabou, depois de intermináveis dez minutos, fomos saindo nos sentindo abençoados, podíamos ir embora, a cor começou a voltar, o sorriso ameaçou uma aparição, mas, somente quando ultrapassamos a porta automática, porta que divide a vida em movimento e a suspensão do palpável, é que começamos a conversar normalmente, a andar a passos de gente grande, de ir por aí, de rir com alegria de quem pensa: menos uma!
 
 
 
 
 


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